• Porque escrever é um vício.

    No mês passado escrevi sobre Internet para a Crônica do Dia. Abordava a modernidade com suas inúmeras facilidades e um novo tipo de solidão que veio de carona na sua garupa.

    É aquela de ter muitos amigos fora de alcance: um sem número de pessoas que a gente conhece (e gosta!), mas que nunca viu - e possivelmente jamais verá. Não porque não quer, mas porque as distâncias reais aliadas ao nosso cotidiano urgente, nos impedem de movimentos mais audaciosos nesse sentido.

    Em outros tempos, entretanto, quem sabe se pela novidade desse intercâmbio, já nos deslocamos mais com essa intenção: eu morava em Campinas quando vim para um almoço aqui em SamPa encontrar pessoas virtuais de uma lista de opiniões da qual eu participava. Todo mundo era de verdade - e foi nessa ocasião, inclusive, que conheci meu marido e nunca mais nos deixamos. Foi há 50 meses (em 23 de Maio/98). Nessa reunião, também conheci Afrodite - que se tornou, algum tempo depois, alguém muito especial pra mim.

    Depois dessa peripécia, outras se sucederam e conheci muita gente por esse meio de comunicação - Lemniscata, Fel, Macacos no Sótão, Escrita Fina, Tudoaquilo (por quem tive o prazer de ser recebida numa viagem a Curitiba) e The Chatterbox (que veio do outro lado do mundo pra nos encontrar), são alguns dos bons frutos dessa ousadia aventureira que todos nós nos metemos.

    Entretando, tendo conhecido tantas pessoas que me são queridas, eu, por vezes, me sinto sozinha: estamos todos ilhados geograficamente.



    Mas a Internet tem um outro lado bem interessante - embora possa ser um ponto complicador: é aquele de criar mitos. Certamente, isso hoje acontece com menor frequência, mas ainda é parte desse cenário.

    E é, também, uma consequência da solidão - na vertente que mais do que o anseio por amigos, está em busca de um amor.

    Sempre achei a idealização algo perigoso. Dificilmente as pessoas correspondem ao modelo que nossa imaginação concebe. Por melhores que sejam, por mais bonitas e encantadoras, nunca estarão no nível da expectativa que um ser ansioso desenhou em sua memória.

    Frustração é o resultado mais comum por trás dos bastidores de um computador. Num olho no olho, cai por terra a perfeição - que, na verdade, jamais cruzou os limites da lenda. É certo que as pessoas são passíveis de inventar para si mesmas qualquer personagem mas, felizmente, não é possível enganar alguém todo o tempo.

    Nessa via de muitas mãos, toda atenção é pouca para quem não quer despertar desejos alheios indevidamente. A virtualidade é uma delicada armadilha, capaz de nos enredar através de sentimentos tão suscetíveis quanto o sinal que nos conecta...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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