• Porque escrever é um vício.

    “Sempre conservei uma aspa à esquerda e à direita de mim.” (Clarice Lispector)

    Não sei se sempre, mas vez ou outra me percebo nitidamente entre aspas. Isso significa estar meio suspenso ante algumas questões, algo como colocar-se à margem.

    Todo mundo sabe - se não sabe, devia saber - que sinceridade não deve ser desculpa para falta de educação, nem deve servir para tripudiar ou magoar, mas omitir verdades necessárias pode ser desleal consigo mesmo - e também com o outro. É possível dizer que se concorda com algo que se discorda totalmente para não criar atrito, mas pode incomodar internamente, deixar a gente desconfortável.

    Eu não me distraio de alguns assuntos e só mudo de opinião se conseguirem provar que o meu raciocínio está equivocado. E detesto quando tentam me convencer de que uma mesma situação possa ter lados diferentes quando ocorridas a pessoas diversas. Mais ou menos assim: se uma mulher vira amante do seu marido, ela não presta; mas se a sua amiga é amante do marido de outra... bem, essas coisas acontecem...

    Então tá. A gente pode fechar os olhos e achar que é assim. E quando a amiga perguntar, a gente não vai se indispôr, claro, nem ser mal educada, muito menos magoá-la - imagine, ela já está numa situação delicadíssima! Vamos concordar que é assim mesmo, essas coisas acontecem - desde que não aconteçam com você, ou seja, que ela não se engrace com o SEU marido, estejamos ajustadas.

    E aí você pode se manter assim, como estou me colocando nesse momento: entre aspas. E não dizer nada, apenas ouvir e acompanhar o desfecho inevitável da trama, como telespectadora de uma novela cujo final você já conhece. Você se protege e, de certa forma, protege o outro. Convence-se de que as pessoas só ouvem a própria voz - o que não é mentira, vamos combinar -, então, melhor não gerar mal estar, não interferir, não atrapalhar, não ajudar, não condenar nem aprovar. Lavar as mãos. Silenciar. No máximo, concordar.

    E, sim, deixa eu me lembrar: não vale sentir-se mal quando as coisas dão erradas e a gente se omitiu. Vamos nos convencer: afinal, a gente não podia mesmo fazer nada!

    Mas que incomoda, incomoda...

    1 comentários:

    Ana Paula Sampaio disse...

    hmmm...Triste é que essas histórias têm sempre um final muuuuito parecido! beijos e boa sorte pra ela!

     

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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