• Porque escrever é um vício.

    "O passado sempre volta pra acertar suas contas."

    A frase é do filme "Os Gângsters" - que, como você deve imaginar, é sobre a máfia. Não conta nada de novo - é só mais uma montagem com enfoque na disputa por poder e dinheiro que sempre glamourizou o obscuro cenário dos mafiosos, recheado de vingança, crime, traição e amor bandido.

    Mas a observação destacada é perfeita para a vida fora do contexto da película: ela cabe aqui, no cotidiano, meu e seu. É como uma profecia, uma sina, um assustador destino: não há nada que passe despercebido ao passado, ele sempre volta pra ajustar nossos equívocos, cobrar os erros, assombrar a memória.

    Mas eu ando pensando que pior do que pagar as próprias contas, é pagar pelos erros do passado alheio. Não bastasse seus próprios temores, e você tem que estar atento aos passos que lhe passam ao lado.

    Não é difícil saber do que estou falando exatamente. Acho que todo mundo, em algum momento, já arcou com algo que não cometeu. Vão desde pequenas coisas - a multa do seu filho que você coloca em seu nome porque ele está prestes a perder a carteira - até a quebra da empresa da família que só se descobre depois que o querido patriarca morreu - não há ironia aqui, só constatação.

    Daí, de uma hora pra outra, você está às voltas com contratempos por conta de eventos que não são seus, mas que você, normalmente a contragosto, tomou para si. Você se vê, por exemplo, tendo que fazer curso de reciclagem quando, de fato, tomou uma única multa por, num dia de tempestade, não ter conseguido chegar a tempo de trocar a zona azul.

    Isso, claro, é um exemplo de gota no oceano - que nem por isso aborrece menos, diga-se de passagem, mas que é até fácil de resolver. Pior são os eventos que quebram a sua confiança na vida. É aquele filho do seu marido que aparece quando está com 20 anos e você nem imaginava que tivesse existido uma amante - imagina, você tinha um casamento tão perfeito! Ou quando você pensa estar prestes a receber uma herança e o banco te apresenta uma dívida impagável. Imagina o susto de um bebê trocado depois de dez anos? Depois de um mês? Quem é que paga essa conta emocional para todos os envolvidos?

    A lista de coisas que podem te atropelar numa manhã clara e ensolarada, é interminável. O passado parece que corre atrás da gente e, cedo ou tarde, apresenta a fatura. Você está ali, com sua vida, driblando as suas próprias faltas - que não são poucas, vamos combinar -, e lá vem o passado de alguém na sua captura, aumentando o seu ônus. E o que me incomoda mais é a sensação de não ter como escapar...

    2 comentários:

    Mariana disse...

    Paguei recentemente contas de passados alheios...e te digo que faz um mal danado...e a sensação de não ter como escapar, mts vezes é só sensação, pq até diante da herança temos escolha, não? Agora...que nos faz pagar um passado alheio, tb vai ter futuro....e isto hj, será seu passado. Aqui se faz...
    Seria bem melhor, pra nossas gastrites, a velha frase cklichê: cada um com seus problemas...rs
    Beijo amada!

    Duda Lessa disse...

    Dé, não acredito em pagar algo que não é nosso...
    De alguma maneira é, por que escolhemos estar ali...E alem do mais, a hora H é sempre uma bifurcação de caminhos... Continuar, ou mudar.
    Beijos,
    madruga a fora.

     

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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