• Porque escrever é um vício.

    Eu tenho questionamentos sobre ter filhos.

    Tive uma fase em que desejei ardentemente ter uma criança. Mais tarde, num outro tempo, agradeci por não tê-la.

    Minha vida sempre foi um turbilhão. Sou daquelas pessoas - virginianas - que adoram a calmaria de tudo no lugar, numa rotina incansável; sou aquela que detesta mudanças.

    Mas quis o destino que meus caminhos fossem pontilhados pelas surpresas - as boas e as nem tanto. Acabou que eu fiquei meio cigana, de um lado pra outro, sem aportar - mesmo quando aparentemente tinha criado raízes.

    Dessa forma, comecei a entender que ter um filho não era seguro - não para mim, mas para ele. Porque eu tenho morando em mim uma mulher que, de repente, vai embora. Ela olha para tudo como se estivesse de fora: senta-se num canto e observa todos os movimentos; então avisa que é hora de partir, que já não pertencemos, nenhuma das duas, àquele cenário.

    Até bem pouco tempo eu tinha, no armário, uma valise com apetrechos emergenciais. De alguma forma, inconsciente, eu estava pronta para ganhar outro rumo a qualquer momento. Um dia, meu marido, que já sabia dela sem eu saber, falou-me sobre a sensação de dúvidas que eu despertava por conta disso. Eu desfiz a pequena mala prometendo a mim mesma deixar essa insegurança - que na verdade era minha -, no passado. Assim tem sido, mas não posso me esquecer disso quando pondero ter um filho.

    Quando li o livro "O Ponto Cego", de Lya Luft (presente de meu marido), pensei se ela não estava narrando aquela história só para mim. Ela trata exatamente de uma mulher ausente-presente. Um menino que, com olhos atentos, capta uma mãe que escapa, ainda que esteja ali, que dedique sua atenção, tempo e carinho, que mantenha tudo na mais perfeita ordem. Mas ele, o pequeno, sabe da outra mulher que mora nela e que está de malas prontas...

    Isso me deixou muito angustiada... Sofro só de pensar em abandono - qualquer tipo dele -, mas será que serei capaz de permanecer sem nenhum tipo de angústia?



    "(...) Ela estava cada vez mais distraída. Algum tempo depois, ela foi embora.

    Foi tão singelamente como se essa partida fosse apenas uma etapa de uma viagem há muito iniciada, mais uma estação onde se troca de trem.

    Eu não soube de nenhuma despedida. Nem um bilhete pra mim, nem uma carta.

    (...) No começo, chorei um grande pranto. As Tias vinham todo dia cuidar de mim, me enchiam de agrados, me consolavam. Mas não era a mesma coisa, não era o mesmo colo, não eram o perfume e a bondade dela.

    - Viajou - disse meu Pai -, e não adianta chorar. Quando você menos esperar, ela volta. Afinal, aqui é sua casa.

    Mas eu sabia que não era, não era mais. Ela agora habitava em si mesma, para dentro de si mesma viajara. (...)"





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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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