• Porque escrever é um vício.

    Hoje minha enteada veio almoçar - com a neta no colo e o futuro neto na barriga: Leonardo ou Isabela. Qualquer um dos dois é bem-vindo, esperado, querido, amado por antecipação.

    A tarde transcorreu assim: com papo, riso, choro, música, fotos, planos. Tem um tanto de paz que nos envolve, impossível de descrever.

    No meio da conversa, o assunto: Medo. A gente tem medo das coisas mais estranhas...

    Ela, por exemplo, tem medo de morrer e que os filhos fiquem à deriva. Tem 31 anos e quer registrar em cartório o desejo de por quem eles devem ser criados e que jamais sejam separados.

    Descubro que criamos traumas impossíveis de compreender. Existem sentimentos que uma vez em nós não se desprendem nunca. São os abandonos, as inseguranças, os escuros da infância: enraizam-se de tal modo, que não importa quanto tempo passe, continuam no nosso sótão particular e, do nada, afloram - e aportam fazendo sombra.



    Ela se foi. Meu marido saiu em seguida, já atrasado, para uma reunião com o sócio.

    Então a casa, que cinco minutos antes era barulho, deslizou para o silêncio.

    Isso não me causa tristeza - continuo em paz.

    Mas uma constatação me ocorre: ao final, estamos sempre sózinhos.

    Eu às vezes fico muito melancólica, um pouco amarga. Aconteceu ontem. É aquela dorzinha que se instala, a gente não sabe bem de onde vem e nem qual a razão.

    São os Medos. Eu tenho os meus. Eles não incluem o de morrer, que quem deixo - meu marido, minha mãe, meus irmãos e sobrinhos -, são capazes de sobreviver com minha ausência.

    Em mim mora, com intensidade, um medo inverso: o de ficar, continuar, depois dos que amo.

    O filme "À Espera de um Milagre" causou-me especial impacto. Já imaginou viver indefinidamente, além de todos que nos são caros? Pensa só no suplício que seria ter os dias ancorados somente nas lembranças e naquele tipo de solidão que é impossível amenizar...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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