• Porque escrever é um vício.

    Minha mãe chegou por aqui na quinta à noite - veio de Campinas, onde vive, para ficar esses poucos dias conosco. Era o dia do aniversário do meu pai...

    Nos vemos menos do que gostaríamos. Perdemos, ao longo da vida - por conta de temperamentos muito distintos e pelo meu apego paterno acentuado -, um tanto de proximidade que vamos tentando recuperar e reconquistar agora.

    Percebo que ela envelheceu muito desde que meu pai se foi. É a lei dos pares em movimento: a perda de muitos anos de convívio provoca um tipo de torpor nos sobreviventes que faz os dias desfocados e sem objetivos: apenas amanhecer e anoitecer, continuamente...

    Eu a beijo carinhosamente antes de dormir e descubro que sua vaidade ficou esquecida em algum canto que lhe parece ser impossível de alcançar: ela costumava - exageradamente, eu diria -, perfurmar-se, pentear-se e passar batom antes de se deitar... A ausência desses gestos poderiam passar despercebidos não fosse pelo fato de que, por sempre ter achado surrealista e engraçado, eu os tenha associado fortemente à sua personalidade.

    Ela também guarda - apesar do sorriso constante e de um humor invejável -, um indisfarçável cansaço em seu olhar, que ultrapassa o físico... É um estranho deixar-se, aquele de quem simplesmente acompanha as horas - um segundo, um minuto, outro...-, sem planos nem sonhos: um visualizar do tempo, como se ele não lhe pertencesse, fosse apenas uma maldade das estações...



    Hoje ela voltou para casa: é aniversário do meu sobrinho e ela queria estar com ele...

    Telefonou, assim que chegou, para dizer que já estava com saudades...

    Eu também sinto saudades dela... Sei que minha família - eu, meu marido, ela, meus dois irmãos, minhas cunhadas e sobrinhos -, apesar das divergências, é como toda família costuma ser: um por todos, todos por um...

    Meus irmãos, talvez por estarem mais próximos, cuidam dela melhor do que eu... Nos falamos sempre e eu lhes agradeço por isso.

    Mas minha ausência não torna meu amor por ela menor... Talvez eu nunca tenha conseguido me expressar claramente: nossas dificuldades de relacionamento nos tornaram - a nós duas -, um tanto polidas uma com a outra... Isso mudou, e embora muitos anos de dureza e incompreensões não possam ser apagados, eles não miniminizam nossos sentimentos mais puros...



    Então, eu vou deixar registrado aqui (depois de já ter dito pra ela): Eu te amo muito, minha mãe... Perdoa se nem sempre eu fui a filha que você desenhou...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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