• Porque escrever é um vício.

    “Foram-se os belos, os ternos, os bravos. Foram docemente, em silêncio, alimentar as rosas. Elegante curva-se o botão, e é perfumado, eu sei. Mas não aprovo, e não me conformo: a luz dos teus olhos era mais preciosa do que todas as rosas deste mundo...” (Edna St. Vicent Millay)




    Hoje é aniversário do meu pai.

    Há três anos ele já não vive mais entre nós. Partiu desse mundo, na minha concepção, jovem demais: aos 51 anos.

    Antes, muito antes, de ter realizado muitos sonhos, de ter visto muitas coisas, de dizer muitas palavras. Não que ele fosse adepto de dizer coisas importantes; pelo contrário: ele era um bon-vivant, um homem da noite, da música, da bebida e da alegria. Do aleatório...

    Dizem alguns que ele aproveitou bem sua vida. Sob determinados prismas, eu posso concordar. Mas quando me lembro do seu dia-a-dia, desse que se fecha em suas quatro paredes, o seu transitar de passos silenciosos pela casa escura, sua insônia constante, seu eventual olhar perdido em alguma distância impossível de alcançar, a dúvida me assola.

    Ele se assemelhava a um turista: olhava para tudo como se fosse a primeira vez, enxergando sempre uma novidade que para os outros soava antiga e banal.

    Aparentemente, ele não se preocupava muito com nada. Mas vou arriscar dizer que essa era uma de suas máscaras. Em seu interior, certamente, um turbilhão de medos e ansiedades turvava seu mundo, sombras gigantes passeavam em suas noites, seu desespero mudo entravado na voz.

    Meu pai também não tinha talento para ser e agir exatamente como esperavam que ele o fizesse.

    Na infância, minha inocência não me deixava entender que um pai pode se sentir muito triste e solitário. Eu olhava para aquele deus particular, que sempre chegava com uma brincadeira e um sorriso, e imaginava que o universo de um homem – especialmente o do meu pai -, era abrigado por alguma espécie de felicidade constante e plena, os problemas esquecidos em algum lugar que nem mesmo ele sabia onde era.

    Por nunca tê-lo visto chorando ou mesmo aborrecido a ponto de chamar a atenção (nem mesmo quando a morte estava ao seu encalço), eu criei a ilusão infantil de que ele driblava bem todo e qualquer revés que se instalava em sua vida e jamais se abatia.

    Foi realmente uma ingenuidade tola. No fundo, eu sempre soube disso, mas talvez esse devaneio louco se agigantasse por conta do meu desejo secreto de que ele fosse feliz. Não havia lugar em mim para o horror do reconhecimento de que ele efetivamente desconhecesse plenitude e paz.

    E só quando seus dias estavam se esvaindo, quando os espelhos se quebraram revelando as imagens de toda a sua vida, os cacos espalhados fazendo sangrar seus sonhos nunca realizados, é que eu pude entender o verde opaco de brilho cinza dos seus olhos pequenos – que já estava ali, embora eu tenha feito de conta que nunca havia notado...



    Eu estou escrevendo um livro de memórias sobre esse homem querido - e este é um trecho desse apanhado de lembranças. Eu páro e retomo, e talvez leve muitos anos para colocar o último ponto. Espero que eu tenha tempo... E mesmo que essas palavras nunca sejam publicadas, vai ser bom contar a história de uma das pessoas mais importantes para mim...



    Feliz Aniversário, meu pai... Onde quer que vc esteja, espero que me leia...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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