• Porque escrever é um vício.

    A moça do "Esse Papo Também" está perguntando que livro estamos lendo. Eu acabei de ler "Uma Verdade Inventada", de Maitê Proença, e agora ando a reler "Na Pele de um Leão", do mesmo autor de "O Paciente Inglês", Michael Ondaatje - e eu nem sei porque estou relendo esse livro, que é difícil e denso.

    Mas então eu me lembrei de um dos meus livros prediletos: "As Horas". E agora me ocorre esse trecho:

    "Talvez pudesse ser profundamente reconfortante; talvez haja uma libertação: simplesmente partir. Dizer a todos eles: 'Não consegui administrar, vocês não fazem idéia; eu não queria mais tentar.' (...) Ela poderia ir, por assim dizer, para essa outra paisagem; podia deixá-los todos para trás nesse mundo sofrido, dizendo um para o outro e para quem perguntasse: 'Nós achávamos que ia tudo bem com ela, achávamos que suas mágoas eram mágoas comuns. Não tínhamos a menor idéia.'" (Mrs. Brown, As Horas, Michael Cunningham)

    De vez em quando, eu ouço a trilha sonora do filme e uma melancolia se espalha ao redor. Será possível que todas as mulheres do mundo tragam na alma uma tristeza insuportável?

    Laura Brown tem uma casa bonita, um marido amável, um filho lindo. Está grávida. Entretanto, foge de um bolo - porque não consegue fazê-lo perfeito. Isso a atordoa. Pode parecer pouco, mas quantas de nós convive bem com as limitações simples, que podem até passar despercebidas para a maioria das outras pessoas, mas que nos é tão imprescindível quanto respirar? A prova de um fracasso, latente, denunciando: ser incapaz para algo corriqueiro por vezes é inaceitável...

    Clarissa Vaughn também tem seus ressentimentos. O maior deles é que os coquetéis para AIDS tenham chegado muito tarde para Richard, seu maior amor, e sua mente esteja debilitada e frágil. Sua impotência diante da doença e da morte iminente causa-lhe infinita angústia. Ela compra flores e quer dar uma festa. A vida lhe parece sempre por um fio - e está...

    Virginia Woolf ouve vozes, sente terríveis dores de cabeça e convive mal com a tarefa de administrar empregados. Quando os sintomas não estão presentes, ela teme seu reaparecimento: nunca está completamente relaxada. Vive apavorada com a possibilidade de amanhecer embriagada por sua loucura...

    Mas como será, afinal, enlouquecer?

    Será que, a cada dia, não perdemos um pouco de nossa sanidade em meio ao cotidiano, as pressões, essa ânsia de nunca errar, deixar tudo sempre em ordem, no lugar?

    Por vezes penso que se muitas de nós não salta do precipício onde vez ou outra se coloca à margem, é por pura crença na brevidade de tudo e na faculdade que as mesmas coisas têm de ser importantes num momento e totalmente tolas no outro.

    Se não nos entregamos de uma vez ao 'partir para sempre' é apenas porque já descobrimos a efemeridade de tudo - além disso, há o horror de causar constrangimentos aos que se ama.

    Mas a verdade é que viver dói e é muito cansativo - mesmo para quem é feliz. Viver exige esforços constantes, atenções redobradas, infinitos movimentos, idéias, milhares de afazeres.

    São flores, bolos, jantares, dores de cabeça.

    São medos, festas, almoços, amigos.

    São risos, amarguras, incompreensões, lágrimas.

    São lágrimas - muitas lágrimas...

    E amor... Sim: deve ser por amor que vivemos...

    P.S.: Daqui a pouco é Setembro...

    7 comentários:

    Marisa Nascimento disse...

    Oi, Debora!
    Eu estou lendo Persépolis, de Marjane Satrapi, a autobiografia da menina iraniana. Mais uma história do universo feminino. Por que será que nós somos assim, sempre tentando encontrar os motivos para tudo não, é? E, por vezes, só por vezes, parece que tudo fica tão sem sentido...
    Beijo grande.

    Camilla Tebet disse...

    Obrigada pela "moça".
    Eu passo sim o tempo todo tentando me manter sã. E sempre que dói mais eu lembro daquela frase da Clarice Lispector: "ser às vezes sangra". E sangra, pra mim sangra.
    Gostei muito do seu texto.

    Caty disse...

    Aiai que post bom de ler... E real, né?

    Saudades, querida...

    Bjos =***

    Mari Monici disse...

    de pleno acordo...hoje pensei muito naquele jargão...Pára o mundo, que eu quero descer...por mais que não se tenha do que reclamar, o que nunca é bem assim de fato, é cansativo. beijo de energia!

    VaneideDelmiro disse...

    Estou chegando um pouco atrasada, mas, como Nando Reis na música, "espero que ainda dê tempo", afinal já estamos em meados de setembro.
    E como diz aquela outra melodia que a Boa Nova entre, definitamente, nos campos...

    Macabéa disse...

    E ontem foi seu aniversário, né. Felicidades e tude de melhor nesse ciclo que iniciou ontem. Como vc sempre dizia: " apreveitei ao máximo esse seu feriado particular", acho que não cabe mais... estou atrasada. Lembrei no sábado 20, depois no domingo 21... mas o tempo não deixou eu escrever, tão pouco ligar. beijo grande.

    Duda Lessa disse...

    Dé, acho que a loucura mora na perfeição... Como podemos atingí-la se fomos feitas ( graças a Deus, literalmente...)imperfeitas? Buscamos fora o que deveríamos buscar dentro, e isso nos carrega para fora de nós mesmas...E quando isso acontece, damos de cara com essa agonia cotidiana...
    Nós mulheres somos suscetíveis e sensíveis, acolhemos as dores do mundo, e as vezes, não conseguimos carregá-las.
    Beijos!!

     

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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