• Porque escrever é um vício.

    Talvez porque amanheceu nublado, minha alma esteja recolhida em si mesma, escura e sombria...

    Talvez porque estamos no outono e as folhas caem, se soltam ao vento, livres para nenhum lugar a não ser o amarelo em que se transformam... Secar, morrer, desfazer-se...

    Talvez porque pouco tenho conseguido pensar e, então, minha criatividade anda esquecida no canto escuro de algum quarto da casa...

    Talvez porque o milagre de viver não me fascine eventualmente: minha tristeza parece maior, a beleza da vida ofuscada por alguma sombra que insiste em me perseguir...

    Talvez porque meus sonhos oscilem entre alcançáveis e distantes demais e um cansaço me tome os ânimos e os nervos porque, afinal, já é tempo de colheita e, de repente, o solo me parece tão árido...

    Talvez porque algumas ausências me incomodem muito e as presenças que tenho não se fazem suficientes para preencher essas lacunas...

    Talvez porque perdi-me dos meus segredos, meus diários esquecidos no sótão da casa, todas as palavras que escrevi trancadas em escuridão e umidade...

    Talvez porque amar seja muito complexo e meu entendimento sobre o sentimento supremo situe-se num plano básico demais para a compreensão de tudo o que isso implica...

    Talvez porque o medo de tudo me assola o coração e paz fica sendo só uma palavra do dicionário que descansa na velha estante...

    Talvez porque eu não esteja lendo nenhum livro, ou porque não tenha nenhum plano, ou ainda, quem sabe, porque apenas anoiteceu, mais um dia que se soma aos meus tantos...

    Talvez porque hoje o espelho tenha me devolvido uma imagem pálida, um reflexo estranho, olhos assombrados que não se reconheceram...

    Talvez porque o inverno se aproxima e o frio nos enrede em geleiras internas de desesperanças, nosso sangue transformado em pedras de gelo à espera do sol para aquecer e derreter - e devolver o encanto...

    Talvez porque eu esteja sentindo muita falta de escrever e me percebo sem idéias.

    Talvez porque eu esteja descobrindo que não existe caminho de pedras porque todos os caminhos são de pedra e não existem atalhos - senão se a gente inventar...

    Talvez porque algum delírio agora me toma e me pego tentando dar sentido às palavras, unindo-as num cordão que nem a mim faz muito sentido...

    Vazio absoluto... Minha memória se ajoelha diante do que recorda e suplica pela luz.
    Devo estar enlouquecendo... Mas é noite e todas as loucuras são perdoadas...

    Maio/2000

    2 comentários:

    Camilla Tebet disse...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    Camilla Tebet disse...

    Perfeito. Já li duas vezes. "Minha memória se ajoelha diante do que recorda e suplica pela luz." Talvez porque estejas assim tão pálida é que devas escrever ainda mais, por mais pálida que pareçam as páginas, que sempre são, ainda mais num blog com fundo branco. Isso é verdade, quem escreve encara o branco.. quando escreve e quando não escreve. Já pensou nisso? Branco por branco, use o da página. E se à noite as loucuras são perdoadas, escreva em celebração à elas. Quer mais do loucura como inspiração pra mandar o branco embora? Não conheço nenhum outro sentimento que brigue assim com uma cor, de forma tão arrebatadora. A loucura sempre ganha do branco.
    Nossa, viajei.
    Beijos e adorei o seu texto. adorei. Cuidado para não deixar escrever.

     

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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