• Porque escrever é um vício.

    A moça do Doce Rotina escreveu na Crônica do Dia um texto com o título "Há Vida Depois do Casamento".

    Acabei de ler no site Glamurama que o Príncipe Charles e Camila Parker estão em crise após três anos de união oficial - com ela confidenciando às amigas o pesadelo de uma viagem de férias (!?) junto ao marido. Vejam bem: não é que eu me interesse pela vida real da Inglaterra, mas me chamou a atenção o inusitado da coisa: os dois foram amantes por mais de vinte anos, transformando a vida da Princesa Diana num tormento de humilhação e dor ante toda a nação inglesa. Depois de enfrentarem - e ultrapassarem - o nariz torto de um país extremamente conservador, divulga-se uma crise após TRÊS ANOS?

    Na minissérie "Queridos Amigos", da Globo, a personagem de Fernanda Montenegro, quando pedida em casamento pelo amante - na pele de Juca de Oliveira -, ri ironicamente e responde, debochada e feliz, algo como: "Mas tu não sabes que o casamento é a morte do amor? Já viste algum poema, alguma música, alguma arte inspirada no casamento? São os amantes, meu amor, os amantes que inspiram versos, poesias, saudades e sonhos..."

    Pois muito bem. Não sei dizer quem tem razão. Em matéria de casamento, eu - que me casei duas vezes - não tenho opinião formada. É uma loteria permanente, um desafio constante, e nada, nesse momento, me parece caber mais nesse contexto do que a idéia de matar um leão por dia.

    Superação pode ser a palavra para definir as uniões. Quando anoitece, você se vê superando mais um dia. E eu não falo aqui apenas e tão somente das relações em crise: o casamento em si encerra tantos deveres, tantas responsabilidades, tantas questões cotidianas, que a crise pode ficar, muitas vezes, encoberta por anos sem que nenhuma das partes perceba o quão maçante tudo se tornou. Você engata um piloto automático e vai vivendo um dia após o outro. Pode de repente explodir; mas isso pode nunca acontecer.

    Na semana passada, conversando com uma senhora de sessenta anos, ela me disse que se soubesse o que sabe hoje, teria feito tudo diferente em relação ao seu próprio casamento. Viveu infeliz por anos a fio em função dos filhos e de uma estrutura familiar que ela julgava necessário manter para a sua sociedade particular - os amigos, a família e afins. Aos sessenta anos sabe que não vai mudar absolutamente nada, mas olha para trás com pesar.

    Pergunto-me: seria o casamento uma prisão camuflada? Será que, trocando a eventual temida solidão por companhia, a liberdade por um desejo de cumplicidade e completude - que pode nunca se dar! -, não fazemos um pacto com o diabo, nos aprisionando em escolhas equivocadas? Maitê Proença, em uma de suas entrevistas antigas, soltou essa pérola: "Quem tem medo da solidão, não devia se casar nunca!"

    Entre um casamento e outro eu vivi por dez anos sozinha - tendo nesse período apenas dois namorados. Com nenhum dos dois quis me casar, apesar das relações serem confortáveis e amorosas - e nunca soube bem porque. Com o terceiro, arrisquei - e me mantenho casada há dez anos.

    Mas hoje tenho um monte de perguntas sem respostas. E eu não falo de amor - porque o amor, muitas vezes, é o que menos importa quando se tenta decifrar as relações a dois...

    Imagens: Couple Standing Back to Back on Wedding Cake,Zefa/Corbis; Wedding Rings,Sébastian Désarmaux.

    4 comentários:

    Marisa Nascimento disse...

    Pois é, Debora!
    Que assunto delicado é o casamento, não? Que convivência é essa que é tão leve e delicada para uns e tão cruel e mesquinha para outros? Acho que são perguntas que não terão respostas, mas eu, no meu modo, talvez único de ver, não consigo enxergar uma troca. Sempre vejo uma das partes cedendo e a outra recebendo.
    Beijo grande!

    Anônimo disse...

    Débora, adoro seus textos, sou sua fã! A forma como você escreve, como relata sentimentos e anseios da sociedade me torna viciada e a ler diarimente seu blog!

    Escreva um livro, publique! Você sem dúvida é ótima!

    Sobre o casamento, sou solteira, então não consigo comentar, mas é impossível dizer que não desenho pra mim uma vida totalmente diferente dessa que descreveu, a gente sempre sonha com tal felicidade né, com um casamento perfeito, eu penso que meu será diferente, mas sei que vou me surpreender, ou não?!

    Beijo grande,
    Camila

    Mari Monici disse...

    So posso dizer que hoje eu imagino que no pé do proximo casamento, irei pensar duas ou mais vezes...Alias, o ex ficou com um loivro otimo meu chamado O anel que tu me deste, conhece? Vem a calhar...mas para abrir mao da ideia do casamento, devemos repensar tantas outras...por onde começar?
    beijo

    Cristiane disse...

    Perfeito seu texto! Principalmente quando diz "eu não falo de amor - porque o amor, muitas vezes, é o que menos importa quando se tenta decifrar as relações a dois."

    Exatamente! Não é falta de amor que acaba com os casamentos, mas outros "detalhes" do dia-a-dia. A frase da Maitê Proença faz sentido e as perguntas sem respostas eu também as tenho...

    Vou ler o texto da Ana.

    Beijos

     

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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