No passado, as mulheres foram consideradas submissas. Elas falavam pouco e, aparentemente, cumpriam ordens. Pareciam viver à margem dos acontecimentos, simples expectadoras de um mundo governado por homens. Mas acreditar que essa é a trajetória feminina, é equivocar-se na ingenuidade: as mulheres sempre foram donas de seus destinos e dos desígnios alheios.
Desde a mais tenra história, ela foi irmã, amante, rainha, sacerdotisa, maga, bruxa, prostituta: sabe melhor do que ninguém de trair e amar. Instituiu a diferença entre o bem e o mal quando cometeu o primeiro pecado: ela, Eva - ou como queiram chamá-la -, a primeira mulher. A virgem imaculada que trouxe ao mundo o filho do Deus.
Foi senhora de lagos e mares, de olimpos milagrosos, de submundos terrenos e imaginários reinos celestes. Grega, romana, sem nacionalidade. Suas muitas vestes eram despidas para a lua numa dança mágica: foi queimada em praça pública quando apenas exercitava sua sexualidade num tempo em que a nudez afrontava as leis.
É preciso conhecer a verdade: não há mundo sem as mulheres. Não falo de executivas em seus taillers desfilando sua muita inteligência e talento. Não falo desse poder de voz que nos tempos atuais se ergue abrindo passagem na modernidade. Esse é só um canto de sereia que seduz as menos integradas com sua alma antiga.
Séculos à frente dessas que hoje se julgam detentoras de uma conquista surpreendente, outras surpreenderam seu tempo porque sabiam que o mundo lhes pertencia.
Desde Avalon - ou muito antes de suas brumas...
Feliz Dia das Bruxas!
Imagens: The Prioress Tale, Edward Burne-Jones; Mariana in the South, John William Waterhouse; Safie, William Wontner
Expressões Letradas
"Quem diz tudo o que quer
dizer?
A gente sempre escala sobre o mais importante
- porque as palavras não são capazes
de traduzir as nossas misérias."
("A Casa das Sete Mulheres")
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
Domingo, Outubro 28, 2007
A convite da Mari - que foi convidada pela Daise -, estou participando do "MEME 161". O que é "MEME 161"? É uma brincadeira que consiste em seis etapas:
1- procurar um livro próximo (o primeiro que aparecer, não vale procurar um livro);
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5- não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6- repassar a outros cinco blogs.
Então tá. Eu fui até a estante - que não havia nenhum livro ao redor. Fechei os olhos e passei as mãos pela prateleira puxando um livro: "Presença de Anita", de Mario Donato.
A quinta frase da página 161 é a seguinte: "Ontem, diante de todos, os abraços e beijos, o convite para o chá, os segredos que ele fingira não ouvir, a promessa duma rumba ao advogado, mas só depois do julgamento e da absolvição..."
Esse é um livro que merecia ser lido novamente... Mas agora convido a todos os blogueiros que passarem por aqui a brincar também, deixando pra mim a quinta frase da página 161 de um livro.
Sábado, Outubro 27, 2007
Hoje tem Crônica do Dia.
Ela e eu.
Terça-feira, Outubro 23, 2007
"O passado sempre volta pra acertar suas contas."
A frase é do filme "Os Gângsters" - que, como você deve imaginar, é sobre a máfia. Não conta nada de novo - é só mais uma montagem com enfoque na disputa por poder e dinheiro que sempre glamourizou o obscuro cenário dos mafiosos, recheado de vingança, crime, traição e amor bandido.
Mas a observação destacada é perfeita para a vida fora do contexto da película: ela cabe aqui, no cotidiano, meu e seu. É como uma profecia, uma sina, um assustador destino: não há nada que passe despercebido ao passado, ele sempre volta pra ajustar nossos equívocos, cobrar os erros, assombrar a memória.
Mas eu ando pensando que pior do que pagar as próprias contas, é pagar pelos erros do passado alheio. Não bastasse seus próprios temores, e você tem que estar atento aos passos que lhe passam ao lado.
Não é difícil saber do que estou falando exatamente. Acho que todo mundo, em algum momento, já arcou com algo que não cometeu. Vão desde pequenas coisas - a multa do seu filho que você coloca em seu nome porque ele está prestes a perder a carteira - até a quebra da empresa da família que só se descobre depois que o querido patriarca morreu - não há ironia aqui, só constatação.
Daí, de uma hora pra outra, você está às voltas com contratempos por conta de eventos que não são seus, mas que você, normalmente a contragosto, tomou para si. Você se vê, por exemplo, tendo que fazer curso de reciclagem quando, de fato, tomou uma única multa por, num dia de tempestade, não ter conseguido chegar a tempo de trocar a zona azul.
Isso, claro, é um exemplo de gota no oceano - que nem por isso aborrece menos, diga-se de passagem, mas que é até fácil de resolver. Pior são os eventos que quebram a sua confiança na vida. É aquele filho do seu marido que aparece quando está com 20 anos e você nem imaginava que tivesse existido uma amante - imagina, você tinha um casamento tão perfeito! Ou quando você pensa estar prestes a receber uma herança e o banco te apresenta uma dívida impagável. Imagina o susto de um bebê trocado depois de dez anos? Depois de um mês? Quem é que paga essa conta emocional para todos os envolvidos?
A lista de coisas que podem te atropelar numa manhã clara e ensolarada, é interminável. O passado parece que corre atrás da gente e, cedo ou tarde, apresenta a fatura. Você está ali, com sua vida, driblando as suas próprias faltas - que não são poucas, vamos combinar -, e lá vem o passado de alguém na sua captura, aumentando o seu ônus. E o que me incomoda mais é a sensação de não ter como escapar...
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Eu ando com desejos utópicos. Sabe aquilo de um mundo perfeito? Pois é: é uma idéia que anda me perseguindo...
Ando um tanto cansada de, toda manhã, abrir os jornais virtuais - Folha, Globo, UOL, G1 e afins - e ler notícias ruins: são crianças abandonadas, acidentes de trânsito, balas perdidas, invasão de morro, prisões, políticos bandidos, aumento de impostos (briga por impostos!), assaltos, mortes, atentados, guerras, telhados que vêm abaixo... Valha-me Deus! A lista é imensa!!!
Quando é que vamos estar às voltas com tempos mais brandos? Você liga a TV e também só encontra notícias ruins. Outro dia, vendo o telejornal na BandNews, ouvi a repórter anunciar: "E agora, as notícias policiais." Mas como? SÓ TINHA DADO NOTÍCIAS POLICIAIS ATÉ AQUELE INSTANTE!!!
Uma vez, não faz muito tempo, Fátima Bernardes anunciou: "E agora, uma notícia boa." Nem ela estava aguentando mais dar tanta notícia triste...
É... Eu ando exausta de tanto revés circundando o mundo... E você?
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Eu andei, hoje, sapeando por alguns blogs - alguns conhecidos, outros nunca lidos. (Shakespeare, em Hamlet)
Nem sempre consigo comentar as impressões. Por onde passei nessa madrugada inquieta, encontrei letras de música, poesia, saudade, dor, incompreensão. Um tanto de amor, sempre, que tudo parece girar um pouco ao redor do sentimento supremo.
São tempos de infância, amores perdidos, morte e renascimento, vida que segue 'apesar de...', 'além de...', 'por causa de...'.
Não chorei, mas tive vontade. Nos útlimos dois meses, não derramei nenhuma lágrima - são as tais 'pílulas azuis', vocês sabem... Tem qualquer coisa de errado nisso, eu sei: é um amortecimento emocional, como se você ficasse imune ao revés, com um sentimento de que tudo é normal, parte do 'processo'.
Então tá. Como a 'maré não está pra peixe', não estou em tempo de questionamentos; melhor, para o momento, render-se ao inevitável - porque também ele é necessário à sobrevivência.
Não posso negar que incomoda um pouco essa ausência de sensibilidade, esse estado alterado de consciência, essa naturalidade falsa que nos passa a impressão de acomodação. Dentro de mim, eu sei, tem um vulcão em constante erupção que tem que ser controlado pra não arrasar tudo ao redor.
Sim... É preciso um pouco de quietude na alma - e como ela não vem sozinha, há que se (ab)usar dos avanços médicos para manter o centro, não sucumbir ao inevitável, continuar avançando pelo caminho do meio.
Sinto minha cabeça latejando. Será o peso das impressões alheias?
"(...) Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe fim aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne. Morrer..., dormir..., dormir... Talvez sonhar... Sim, eis aí a dificuldade! Os sonhos que hão de vir no sono da morte quando nos tenhamos libertado da confusão desta vida."
Sábado, Outubro 06, 2007
Pois então: eu acho que ainda não falei que a Crônica do Dia voltou. E voltou em grande estilo, com cronistas antigos e novos, num formato leve e gostoso de ler.
E hoje tem um texto meu lá, com uma brincadeira de escrever histórias de um jeito objetivo e curto - literalmente.
Quem gosta de escrever, podia arriscar essa vertente literária. Tenho certeza que conseguiremos boas histórias...
Quarta-feira, Outubro 03, 2007
Ela me lembrou hoje de Frida Kahlo.
Daí eu lembrei que esse é o ano em que se celebra o centenário de nascimento da artista, que se tornou um mito tanto por sua obra impactante quanto por sua trajetória pessoal, cercada de dramas.
Mulher à frente do seu tempo, Frida é lembrada pela exuberância de suas telas, que se refletia também na maneira como se vestia e adornava, com cores fortes, próprias de sua identidade e cultura mexicanas.
Foi audaciosa e colorida que ela enfrentou bravamente um corpo dilacerado por dores físicas, elevada por energia, paixão e humor contagiantes. Essa força feminina, com requinte místico, a transformou em ícone das gerações seguintes.
Uma de minhas frases prediletas de Frida consta como sendo a última que escreveu em seu diário:
"Espero que a despedida seja alegre e espero nunca mais voltar..."


