• Porque escrever é um vício.

    De vez em quando, na madrugada dessa São Paulo concretada, eu ouço uma cigarra cantar. Acho que ela se perde entre os jardins dos muitos prédios ao redor e pousa aqui, bem debaixo da minha janela, cantando bem alto - como para alcançar o 11º andar.
    Então eu sinto um pouco de saudade de , onde vivi por muito tempo e onde minha mãe e meus irmãos continuam a morar.
    , especialmente na casa da minha mãe - num condomínio que já foi um brejo -, a gente ainda ouve o coaxar dos sapos, o canto das cigarras, e vê o voar dos vagalumes - pequenos pontos brilhantes na noite que se ilumina de estrelas no azul marinho mais puro.
    Eu sinto muita saudade do meu pai e não cabe em mim a incompreensão por sua morte prematura - aceito, mas não entendo.
    Por causa dela, minha família se divide: não mais comemorações na casa grande, mas em outras casas, muito menores. Meu irmão mais novo vai pra casa da namorada; meu irmão do meio faz ceia em sua casa com a família de sua esposa; eu permaneço aqui junto dessa família que herdei - e com a qual sou muito feliz.
    Minha mãe, hoje avessa a badalações, dá uma breve passada na casa do meu irmão do meio (mais por conta das crianças, os netos), que mora a um quilômetro dela - aqui, eventualmente consigo trazê-la para almoçar no dia seguinte, mas esse ano não foi possível convencê-la.
    Depois, ela se recolhe.
    Eu telefono e a encontro lá, a voz calma no silêncio de sua solidão. Esforço-me para não chorar e passar-lhe da minha alegria numa tentativa - inútil, eu sei - de contagiar-lhe. Posso imaginá-la sentada numa das cadeiras de balanço, na penumbra do abajour da sala de jantar, de frente para a mesa vazia, onde outrora ela se sentava, lado a lado com meu pai depois que a calmaria da festa se instalava, a mesa ainda posta, para comentar sobre como tudo tinha sido bom... Eles ouviam Roberto Carlos, juntos - todo ano seu disco novo ecoava sobre o nosso natal.
    É pena, é muita pena que isso tudo, tão cedo, já seja parte da nossa memória, passado - não tão distante, mas já história.
    Outras situações nos acalentam, é verdade: há muita coisa boa para todos nós. Mas fato é que falta alguém e cada um lida com isso à sua maneira - e nem sempre é fácil...

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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