• Porque escrever é um vício.

    Ontem, reassistimos, na Globo, Garota Interrompida.

    O tema loucura sempre me fascinou. Essa linha tênue que nos separa da lucidez e de um momento de completo descontrole é, ainda que largamente pesquisada, uma eterna interrogação.

    Afinal, quem são os loucos?

    O filme dá uma ligeira definição no final: Somos eu e você amplificados. E quem não teve um instante de emoções maiores que sua vontade de manter-se centrado? Mas isso, naturalmente, não nos caracteriza loucos.

    É preciso mais - o que, exatamente, é difícil de identificar...



    Eu tenho um texto escrito em Julho/97. Meus pais têm uma casa num condomínio feito ao pé de um Hospital Psiquiátrico. Um dia, observando uma moça muito bonita, inventei um cenário... Chamei de Loucura Inocente. Fica aí, um pouco longo, pra quem se interessar.



    Ela rasgava suas próprias vestes e quando questionada, respondia que abria brechas para que seu corpo enxergasse. Dizia que as roupas a cegavam e tinha que evitar que alguém a machucasse.

    Vestiam-na sempre com trajes surrados - dada a inutilidade de aprumá-la -, carinhosamente explicando que eram “defensores do sono”. Ela tinha medo de dormir.

    Contava que uma vez dormira e algo que morava em sua alma escura ficara acordado. Ela não cuidara de si e fora engolida por esse abismo.

    Reclamava do frio mas era impossível aquecê-la: ela estava sempre gelada.

    Em outra ocasião contou que descansava à beira de um lago numa floresta densa e os lobos vieram e roubaram sua filha... Pedia a todos que ficassem sempre alertas.

    Uma vez falou sobre pontes num vale de fogo que lhe ardia a pele. Ela olhava para as chamas, distraída, e fora inteiramente queimada.

    Falava de barcos e de como gostava de olhá-los. Descrevia um rio que ninguém sabia onde era. Pedras formando cachoeiras, brisa fresca. O rio a olhava... Até que um dia fechou os olhos e as águas arrastaram uma parte dela. Não durma, era o seu conselho constante...

    A casa na colina era toda branca. Nas janelas e portas, grades de ferro fundido. O silêncio predominava, exceto pelos sussurros de seus habitantes que conversavam sempre à meia voz, como quem conta segredos.

    Ninguém sabia o nome daquela aparente menina que chegara ali trazida por um carro de luxo, num vestido claro de seda florida, havia quase cinco anos. O motorista dissera que a encontrara nas ruas, mas os que a receberam nunca acreditaram nessas palavras. Chamavam-na de Luz porque seus olhos tinham um tom diferente e oscilavam a cor. Ela tinha os cabelos dourados, sempre emaranhados porque nunca se penteava. Era bonita, muito embora sua beleza se perdesse nas sombras em que vivia mergulhada.

    Sentava-se sobre a grama todas as tardes para namorar o por do sol. E em noites de Lua cheia, debruçava-se na janela trancada: permanecia ali até o amanhecer.

    Falava pouco; entretanto, às vezes cantava e dançava no pátio. Fazia arranjos de flores e costurava, incansável, pequenas bonecas com os tecidos irregulares que cortava: distribuía-os entre as outras mulheres como se fossem presentes, tesouros. Raramente sorria, mas quando o fazia podia-se ver a pureza e delicadeza no gesto.

    Não era agressiva; contudo, quando a forçavam a se deitar, ela se debatia, chorava, soluçante. Ninguém compreendia...

    Um dia, um rapaz chegara no lugar pedindo abrigo por uma noite. Ela estava sentada no jardim. Ficou olhando muito tempo para ele, que esperava. Ele também a olhava e seu pensamento vasculhava a razão pela qual ela estaria ali.

    Aproximou-se. Ela lhe sorriu e contou suas repetidas histórias: as roupas rasgadas, o rio, as pontes, os lobos... Estar atento. Ele ouviu, muito paciente, e movido por repentina paixão tocou-lhe o rosto.

    Percebeu-se relatando para aquela moça de olhos brilhantes suas dores e sofrimentos até aportar ali. Falou das noites em que dormira sob a luz da Lua, debaixo do manto suave da escuridão. Falou dos ventos cortantes: também ele sentia frio. Contou sobre os dias em que percorrera matas, sinuosas trilhas que pareciam levar a nenhum lugar. Perdera-se infinitas vezes... Mostrou a ela castelos, bichos, escadas, universos inteiros que se espalhavam no céu através das nuvens. Falou sobre os mares... Descreveu a imensidão: ele gostava de velejar e construíra muitas jangadas para cruzar o oceano de um lado a outro.

    Seguia uma estrela, ele lhe disse sorrindo. Ela riu.

    Viu-a aninhar-se em seus braços, criança em busca de afago.

    E quando voltaram dizendo que ele podia ficar, ele a tinha adormecida no gramado verde, numa tarde azul...



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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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