• Porque escrever é um vício.

    Ela sonhou que estava morta; ela tem falado da morte da cunhada, por conta das mudanças que isso provocou em função dos dois sobrinhos pequenos.

    Vira e mexe, a gente menciona essa sra. soberana. Vira e mexe, ela nos espreita mais de perto.

    Envelhecer e morrer é um fato. Só não envelhece quem morre jovem; morrer, entretanto, iremos todos.

    Pessoalmente, não tenho medo da morte na vertente em minha direção; o que me aflige em relação a ela, é esse roubar as vidas que amo.

    Para isso, não estou preparada - e alguém está?

    Sei: cada um absorve desse assunto à sua maneira. Tem muita gente que tem um entendimento superior e essa compreensão gera uma aceitação resignada, simplificando a morte numa passagem, jamais num fim.

    Eu, como há muito perdi todas as minhas certezas, ainda tenho um sem número de questionamentos sobre o depois - se é que ele existe.

    A unanimidade entre todos é que ninguém deseja a morte a ninguém, nem mesmo aos seus inimigos - o que é curioso, já que morrer é a forma mais fácil de desaparecer e deixar de importunar.

    E quando morre alguém de quem não gostamos muito, o impacto nos deixa uma contraditória sensação - aquela de não saber se estamos felizes com tal desfecho para alguém que nos aborreceu, ou se ficamos tristes pela perda - mesmo que não seja nossa. É possível que prevaleça o segundo sentimento por conta do sofrimento alheio. Não estamos mesmo nunca preparados para essa surpresa.

    Muita gente querida para mim já se foi desse mundo, mas nada foi tão dilacerante quanto a morte do meu pai. Não que eu não soubesse da iminência - ele esteve doente por dois anos -, mas foi nessa ocasião que caiu sobre mim com mais peso a ingrata demonstração de que a vida continuava apesar da minha dor. O sol daquela segunda-feira, depois que tudo tinha acabado, ardeu minha alma numa indignição: como era possível que o mundo não caísse em trevas e não fizesse silêncio - ao menos por um dia?

    Mas esse é o milagre mais doloroso da morte: a vida que continua. À despeito da ausência, da incompreensão, do susto, amanhece e anoitece, ininterruptamente, como se nada tivesse acontecido.

    E a gente fica assim: agarra-se às boas lembranças, aos sorrisos mais vibrantes, aos risos mais alegres, à fisionomia mais bonita que a memória conseguiu abarcar.

    O tempo vai amenizando, mas não apaga. Existem saudades que passam a fazer parte de nós...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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