• Porque escrever é um vício.

    Eu estava longe de casa na manhã de sábado, quatro de Julho de 1998, quando senti meu pai morrer. Eram oito e quinze da manhã quando um calafrio me percorreu o corpo - eu estava a caminho do apartamento em reforma de uma amiga. Poucos minutos depois, minha mãe me chamou ao celular para dar a notícia que eu já sabia.

    Meu pai havia entrado em coma na quarta-feira - dia em que viajei para São Paulo, não sei bem pra que (acho que pra fugir da iminência da morte, como se isso fosse possível).

    Eu namorava meu atual marido, mas não vim para me encontrar com ele. Era época da Copa do Mundo, e eu estava hospedada na casa da mãe de uma amiga, em São Caetano do Sul.

    Eu voltei para Sousas (um distrito de Campinas) naquela manhã de sábado, sem pressa, e a primeira coisa de que me lembro foi do silêncio inquietante quando entrei na casa que era do meu pai: os cachorros (três) estavam deitados na garagem, numa curiosa paralisação: eles não se mexiam, não latiam, não faziam qualquer movimento.

    Meu irmão mais novo estava sentado na sala principal e ele também não se mexeu nem pronunciou palavra quando me viu entrar; minha mãe estava no hospital, e suponho que meu irmão casado estivesse na casa dele (na ocasião, eu não tinha muito contato com ele, pois discordávamos de algumas coisas em relação ao tratamento do meu pai, o que causava um certo embate cotidiano e, consequentemente, uma natural distância).

    Ante aquele nada a fazer e com uma solidão indescritível no peito, eu fui para um shopping a céu aberto, que localiza-se no meio da estrada, entre Sousas e Campinas. Sentei-me numa mesa, num Café, e ali fiquei durante umas duas horas, até que minha mãe avisou que estavam a caminho do cemitério. Foi um dia terrível e - contradição - a noite mais longa e a mais curta da minha vida.

    A outra coisa que eu mais me lembro, é do amanhecer de domingo: um sol aberto num céu muito azul, totalmente limpo. E havia um vento suave. Era um daqueles dias perfeitos, daqueles dias que eu mais amo, e eu me lembro de ter ficado um tanto inconformada, porque me ocorreu que o tamanho da minha tristeza não combinava com um dia tão belo.

    Quando a cerimônia acabou, eu fui pra casa do meu pai, me deitei e só levantei na manhã de segunda-feira - para descobrir que, independente da dor, a vida continuava e havia muita coisa a fazer.

    Dez anos depois, as noites são sempre longas, assim como a dor, a ausência e a sempre latente saudade. E sim: a vida continua, amanhecendo e anoitecendo, acontecendo...

    Como sempre...

    Imagem: Travesseiro, Autor Desconhecido

    5 comentários:

    Marisa Nascimento disse...

    Debora, a ausência e a saudade de quem amamos sempre nos acompanham nesta e em tantas existências quanto forem necessárias.
    E também nos acompanham o amor e os laços que se formam a cada dia com pessoinhas que nascem perto de nós e que encontramos na nossa caminhada. Todos os dias...
    Beijo, linda!

    VaneideDelmiro disse...

    O seu blog é um dos que costumo visitar com certa regularidade.
    Engraçado vir aqui hoje, numa noite de sábado - que ficou marcada pela perda de alguém a quem muito amava e continuo amando de um outro jeito - meu padrinho. Lendo a tua postagem, também me veio a lembrança daquela ligação que me tirou do banho e pressagiava o irreparável.
    Dez anos se passaram em tua vida e a tua fala é tão viva, como se tudo tivesse ocorrido há um minuto atrás.
    Ficou eterno, não pela dor... Não só por ela. O amor tornou eterno, já disse Rubem Alves numa crônica, certa vez.
    Adorei voltar aqui.

    Caty disse...

    Eu nem havia lido seu post e coincidentemente (ou não) tb postei hoje sobre meu pai.
    Ai... Essas coisas com pai mexem comigo...

    Fica bem, tá? ;)

    Saudades :***


    (mudei do Blogspot pro Wordpress)

    Camilla Tebet disse...

    Engraçado, já entrei aqui umas 4 vezes e comecei o texto. MAs não tive coragem de passar pela segunda linha em nenhuma das vezes. Hojs sim.. e que belo texto. E que desabafo bem feito. Do jeito que eu li, vi uma mulher 10 anos, e só 10 anos depois, entender e conseguir colocar em poucas e claras e sentidas palavras a perda.
    Esses assuntos também mexem comigo, por isso não terminei de ler antes.
    Um beijo

    Camilla Tebet disse...

    Engraçado, já entrei aqui umas 4 vezes e comecei o texto. MAs não tive coragem de passar pela segunda linha em nenhuma das vezes. Hojs sim.. e que belo texto. E que desabafo bem feito. Do jeito que eu li, vi uma mulher 10 anos, e só 10 anos depois, entender e conseguir colocar em poucas e claras e sentidas palavras a perda.
    Esses assuntos também mexem comigo, por isso não terminei de ler antes.
    Um beijo

     

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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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