• Porque escrever é um vício.

    Telefone.

    Todo mundo que me conhece sabe que eu detesto telefone.

    Falo, claro. Falo com as pessoas que gosto e que me querem bem. Falo com aqueles que me fazem rir, têm coisas boas pra contar e para ouvir. Falo quando as coisas vão mal - ou não: se ficam muito ruins, recolho-me totalmente. De toda forma, falo apenas com aqueles por quem tenho imenso carinho. E falo também com delivery's, bancos (argh!), prestadores de serviços: tem sua utilidade, sem dúvida.

    Mas, fora isso, agonizo diante desse invento que, para a maioria, é imprescindível. Aqui, normalmente, é meu marido quem se utiliza desse benefício tecnólogico - falando, inclusive, muitas vezes, por mim.

    Nem sempre foi assim - ou melhor: não era assim enquanto eu não tinha um telefone. Eu era pequena e havia uma fila imensa para se obter um. Mas eu me lembro do meu pai dizendo que até o meu aniversário, talvez de 12 anos, teríamos um em casa. E ele cumpriu a promessa. Lembro do dia seguinte à sua instalação: distribuí o número - que naquela época era só de cinco algarismos - alegremente para o colégio inteiro.

    Uma semana depois, sem que ninguém percebesse, eu tirava levemente o telefone da tomada, de modo que ele parecesse funcionando, mas não tocasse: o encanto estava dissipado.

    Era-me insuportável aquele barulho ecoando pela casa, na hora do café, do almoço, no jantar, quando estávamos reunidos vendo TV, já indo para a cama. Descobri que um telefone não respeita ninguém: ele simplesmente toca e não pára de tocar enquanto você - ou alguém - não o atende.

    Mas minha relação com esse objeto desandou de uma vez quando eu tinha 17 anos: um dia, antes que acordássemos, aquele bicho insano desatou e grunhir. E fui eu quem o fez parar. Do outro lado da linha, uma amiga chorava: avisava que nosso amigo, Edson, de 20 anos, tivera um infarto durante a noite e morrera. Eu nem sabia bem o que era um infarto e menos ainda que alguém com tão pouca idade pudesse ser arrebatado por ele.

    Depois disso, pareceu-me que um telefone era, além de um intruso que não considera coisa alguma, essencialmente, um portador de desgraças.

    Não foi assim, uma descoberta da noite para o dia: foi gradativa, observadora, calculada.

    E com o tempo, depois de muitas notícias desagradáveis - que, na maioria das vezes, salvo exceções, não tem nada a ver com quem telefona mas com o que tem a dizer -, eu passei a detestar telefones.

    Ninguém sabe porque estou escrevendo sobre isso, não? Ou alguns até adivinham...

    Sim: ontem, uma má notícia chegou. Perto da meia-noite, esse animal enlouquecido rompeu o silêncio dessa casa: só tinha eu aqui. Não: ninguém morreu - o que, de certa forma, é um alívio. Mas matou uma parte de mim que tinha uma tênue esperança sobre um impasse aparentemente insolúvel que me aborrece profundamente - e me roubou o sono.

    O telefone.

    Tem gente que anda com um a tiracolo, por todo canto.

    Eu? Acho, especialmente hoje - como em outras ocasiões -, que ele podia nem existir...



    O dia vai ser de longas caminhadas...


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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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