• Porque escrever é um vício.

    Você já desejou ser outra pessoa?

    Pois eu já e ando assim de novo: querendo aportar em outro alguém - sem passado, sem memória, sem história e sem insônia.

    Outro dia li uma matéria sobre uma mulher que esteve durante um ano com amnésia. Que maravilha! Um ano sem lembrar-se de nada!?



    Eu tive um namorado que quando nos separamos - porque ele engravidou outra mulher, diga-se de passagem -, enlouqueceu: ficava na porta do prédio onde eu morava a noite inteira dentro do carro, porque eu não o deixava mais entrar: ele queria explicar o auto-explicável - só difícil de entender - e eu não estava mais a fim de ouvir. Era um transtorno...

    Um dia, quase dois anos depois do rompimento, telefonou dizendo que precisava me ver e era urgente. Exausta desse assédio insuportável, fui dormir na casa da minha mãe. Na pressa, deixei a porta de vidro da sacada aberta. Pois isso bastou para ele discutir com os porteiros - quando avisaram que eu não estava e ele argumentou que eu jamais deixaria uma janela aberta ao sair -, e passar mais uma noite lá, à espera do nada - e dessa vez, bebendo uma cerveja atrás da outra de um isopor que ele trazia no carro, depois me informaram (e que fique claro que ele passou a beber depois que me deixou).

    Pela manhã, finalmente convencido de que eu não ia sair - porque não estava -, nem chegar, arrancou em alta velocidade. E quis a ironia da vida que ele sofresse um terrível acidente, que o deixou em coma por três meses - durante os quais, a pedido do irmão dele, eu ia todas as noites ao hospital passar meia hora na UTI conversando com ele para tentar trazê-lo de volta (entenda-se: dentro daquela teoria de que as pessoas em coma nos ouvem e entendem) -, e perder a memória. Ou melhor: o fez ficar com memória seletiva.

    Quando, dois dias depois do despertar trouxeram-lhe a mulher com quem ele tinha um filho, ele disse que tinha muito prazer em conhecê-la, mas a mulher dele se chamava Débora. Ouvindo a mãe dele me contar, eu pensei que fosse uma piada e ri a valer. Até hoje sou odiada pela tal moça por esse evento...

    Mas fato é que ele ganhou de presente a faculdade de lembrar-se só do que queria; mais que isso: de lembrar-se de como ele queria que tivesse sido!

    Claro que isso causou muita confusão e tristeza - como a demora em reconhecer um filho do qual ele não se lembrava -, mas pensa no milagre que é ter uma memória seletiva!

    Isso já faz oito anos e ele ainda continua assim - meio suspenso em sua própria vida, sem saber ao certo o que é verdade, o que ele inventou, o que realmente aconteceu, o que é desenho da sua mente. Para ele, entretanto, talvez isso não tenha sido realmente bom - que o acidente deixou outras sequelas, como a difilculdade de locomoção e também a perda da memória imediata: ele vive na penumbra, entre a realidade e a ilusão, sem ter qualquer certeza dos últimos cinco minutos.

    Ah! A vida... Quanta contradição!!!



    Eu fico aqui, com todas as minhas lembranças e esse deve ser o milagre da vida pra mim - embora, por vezes, esquecimento (em qualquer vertente) me soe muito adequado...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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