• Porque escrever é um vício.

    Esses dias, olhando a tarde morrer da varanda, eu me lembrei de quando era criança.

    Sempre fui muito pequena para a minha idade - meu pai tinha o hábito de medir-me nos azulejos da cozinha desde os seis anos (quando ele achou que eu tinha parado de crescer), e acho que fiquei uns três anos na mesma marca. Mas isso, hoje sei, não era o mais importante: importante era que o meu pai tinha os olhos muito cuidadosos comigo.

    Eu também não fui uma menina padrão. Odiava vestidinhos, fivelinhas e afins - para desespero da minha mãe. Detestava pentear os cabelos - que ela insistia em deixar compridos -, e por volta dos mesmos seis anos descobri um jeito de fazê-la cortá-los: adormecer mascando chicletes.

    Vc não entendeu a manobra, não? É que quando a gente é criança, chicletes caem da boca enquanto a gente dorme e grudam no cabelo - e não saem. Então a gente tem que cortar...

    Pigmaleão era o meu estilo. Era, na verdade, o estilo da época: curtinhos, parecendo mesmo um moleque. Aliás, de boné, eu era facilmente confundível.

    Vaidade, afinal, nunca foi meu forte.



    Eventualmente penso nisso: minha ausência de vaidade.

    O tempo avança e linhas de expressão fincam minha pele.

    Pessoalmente eu não me incomodo, mas há mais ou menos dois anos, tudo o que sou entrou em cheque. E, de vez em quando, eu me vejo nas sequelas dessa 'afronta'.

    Pensei, naquela ocasião, que eu gostaria de ser uma mulher mais cuidadosa com os detalhes femininos: comprar mais roupas, ter uma coleção de batons, uma imensa caixa de esmaltes.

    Achei, naquela época, que eu era uma mulher muito densa em sentimentos, e que a sensualidade talvez morasse nas insignificâncias. Às vezes, a gente paga um preço bastante alto por ser inteira: alguém nos parte em pedaços, nos divide ao meio...



    Mas acontece que a gente sempre se recompõe e não deixa, nunca, de ser quem é: continuo densa e não sou consumista.

    Aprendi, com aquele que media minha altura semanalmente, que não se deve dispender energia com o desnecessário nem dinheiro em futilidades. E se vez ou outra me enredo pelos caminhos desse primeiro ensinamento, não costumo me perder pelas trilhas do segundo.

    No fundo, continuo a mesma menina-moleque de sempre.

    A diferença é que meus cabelos hoje são longos (porque sinto frio na nuca), não preciso mais medir-me (que parei de crescer mesmo com 1,57 m, por volta dos quinze anos), e que na inocência tinha a mania de admirar o por do sol sentada (escondida, pra ser mais clara) em telhados de casas em construção (sendo que hoje sento-me confortavelmente numa cadeira na sacada do 11º andar de um apartamento adorável).

    Mas bem dentro de mim eu sou a mesma: meus valores não mudaram - mesmo que, por vezes, eu deseje ser alguém mais... exuberante, digamos.

    E tem uma coisa da infância que realmente me faz falta: aquele de quem eu roubava os olhares mais atentos...



    Ah! E sim: diverti-me muito na festa alemã - algo que também lembrou-me dos meus dias juvenis, meu pai, como um bom alemão, tomando muita cerveja, comendo muito churrasco e deliciando-se com strudell.

    As pequenas coisas... Sempre gigantes...



    O feliz vai se dobrar de dor e, quando você tiver ido para a terra, deixarei meu cabelo crescer em sua homenagem e errarei pelas matas na pele de um leão. (A epopéia de Gilgamesh)




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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