• Porque escrever é um vício.

    Não é raro: eu me pego observando as pessoas e desenhando uma história para elas. Geralmente, faço isso com desconhecidos, porque os que fazem parte do nosso meio, nos fazem conhecedores de, pelo menos, parte de seus caminhos e não me ocorre fantasiar sobre os desígnios que os esperam: esses, a gente acompanha a estrada, compartilhando da alegria e da dor na medida em que elas baixam seu manto.



    Essa madrugada o calor me roubou o sono e eu me sentei na varanda para sentir o vento ventar - como ela diz -, apesar de não haver sequer brisa.

    Eu olhava a rua, escura e vazia, algumas luzes insones nas janelas dos edifícios vizinhos, o azul marinho pontilhado de estrelas, ouvindo sons distantes e raros da avenida aqui ao lado.

    Podia-se pensar que o tempo estava parado, inerte, talvez descansando; mas isso não é verdade: mesmo com essa impressão de estar suspensa numa quietude quase incompreensível, a gente sabe que os segundos avançam, implacáveis, e a vida não pára de acontecer.

    Mas, há brechas para uma sutil ausência de movimentos bruscos e eu estava diante de um deles. De repente, vi um homem descendo a rua; vinha apressado, como sempre fazemos na noite silenciosa, com aquela peculiar ansiedade de não saber se alguém nos espreita ou persegue. Qualquer ruído ou vulto nos sobressalta, o medo tem a face da noite - ou será que a noite tem a face do medo?

    Um gato preto atravessou o caminho dele e ele parou, num susto. Depois, seguiu caminhando...

    Da sacada do 11º andar eu vi essa cena insólita e sem qualquer relevância e me peguei perguntando de onde vinha esse homem àquela hora. Ou para onde estaria indo. Teria ele alguém à sua espera? Estaria ele indo dormir ou já teria acordado? Talvez estivesse feliz, caminhando despreocupado, além do meu julgamento noturno. Ou muito triste, envolvido em pensamentos soturnos que o impeliam a caminhar na tentativa de desviar-se de si mesmo...

    É... Tantas possiblidades sobre uma vida, que eu poderia passar horas inventando destinos para um homem cujo rosto não faço a menor idéia de que traços tenha. Ele saiu do meu alcance de visão antes de eu terminar meus questionamentos.

    Em minha companhia, só ficou a sombra da minha imaginação criativa - que logo parou de pensar sobre isso.



    Fiquei ali mais um pouco, admirando um cor-de-rosa claro despontar no horizonte, avisando que amanhecia.

    Era tarde...

    Ou, quem sabe, muito cedo...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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