• Porque escrever é um vício.

    Já li os quatro volumes da história, mas é a centésima vez que tento assistir As Brumas de Avalon e não consigo. Hoje eu ia gravar - que o Raul detesta épicos e lendas -, mas como ele ia saindo pra uma reunião, achei que dava pra ver sozinha e tranquila. Mas tão tranquila e sozinha que acabei dormindo... É pra rir ou pra chorar? Fica a critério.

    Agora, amanhã gravo a segunda parte e na semana que vem gravo a primeira... Que coisa!

    É um dos livros mais belos que li...



    "Morgana fala...

    Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. Na verdade, cheguei agora a ser maga e poderá vir um tempo em que tais coisas devam ser conhecidas.

    Verdadeiramente, porém, creio que os cristãos dirão a última palavra.

    O mundo das Fadas afasta-se cada vez mais daquele em que Cristo predomina. Nada tenho contra o Cristo, apenas contra seus sacerdotes, que chamam a Grande Deusa de demônio e negam o seu poder no mundo. Alegam que, no máximo, esse seu poder foi o de Satã. Ou vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré - que realmente foi poderosa ao seu modo -, que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?

    Houve um tempo em que um viajante, se tivesse disposição e conhecesse apenas uns poucos segredos, poderia levar sua barca para fora, penetrar o mar do Verão e chegar não ao Glastonbury dos monges, mas à ilha sagrada de Avalon; isso porque, em tal época, os portões entre os mundos vagavam com as brumas e estavam abertos, um após o outro, ao capricho e ao desejo do viajante.

    Esse é o grande segredo, conhecido de todos os homens cultos da época: pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca, novo a cada dia.

    E agora os padres, acreditando que isso interfere no poder de seu deus, que criou o mundo de uma vez por todas para ser imutável, fecharam os portões (que nunca foram portões, exceto na mente dos homens), e os caminhos só levam à ilha dos padres, que eles protegeram com o som dos sinos de suas igrejas, afastando todos os pensamentos de um outro mundo que viva nas trevas.

    Na verdade, dizem eles, se aquele mundo algum dia existiu, era propriedade de Satã, e a porta do Inferno, se não o próprio Inferno.

    Não sei o que o Deus deles pode ter criado ou não. Apesar das histórias contadas, nunca soube muito sobre seus padres e jamais usei o negro de uma de suas monjas-escravas. Se os cortesãos de Artur em Camelot fizeram de mim este juízo quando fui lá (pois sempre usei as roupas negras da Grande Mãe em seu disfarce de maga), não os desiludi.

    E na verdade, ao final do reinado de Artur, teria sido perigoso agir assim e inclinei a cabeça à conveniência, como nunca teria feito minha grande Senhora, Viviane, a Senhora do Lago, que depois de mim foi a maior amiga de Artur para se transformar mais tarde em sua maior inimiga, também depois de mim...

    A luta, porém, terminou. Pude finalmente saudar Artur, em sua agonia, não como meu inimigo e o inimigo de minha Deusa, mas apenas como meu irmão e como um homem que ia morrer e precisava da ajuda da Mãe para a qual todos os homens finalmente se voltam. Até mesmo os sacerdotes sabem disso, com sua Maria sempre-virgem em seu manto azul, pois ela, na hora da morte, também se transforma na Mãe do Mundo.

    E assim, Artur jazia enfim com a cabeça em meu colo, vendo-me não como irmã, amante ou inimiga, mas apenas como uma maga, sacerdotisa, Senhora do Lago; descansou, portanto, no peito da Grande Mãe, de onde nasceu e para quem, como todos os homens, tem de finalmente voltar.

    E talvez - enquanto eu guiava a barca que o levava, desta vez não para a ilha dos padres, mas para a verdadeira ilha sagrada no mundo das trevas que fica além do nosso, para a ilha de Avalon, aonde agora poucos além de mim poderiam ir, ele estivesse arrependido da inimizade surgida entre nós...

    Eu tive sempre o dom da Visão, de ver o interior da mente dos homens e mulheres e durante todo esse tempo, estive perto de todos. Assim, por vezes, tudo o que pensavam era do meu conhecimento, de uma forma ou de outra.

    Um dia, os padres também contarão sua versão da história, tal como a conhecem. Talvez entre as duas se possam perceber alguns lampejos da verdade.

    O que os sacerdotes não sabem, com o seu deus uno e sua verdade única, é que não existe história totalmente verdadeira.

    A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará, depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos e, talvez, no fim, chegaremos ou à ilha sagrada da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã, Inferno e danação...

    Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente venenosa, censurou-me certa vez por falar mal do deus deles.

    Todos os deuses são um deus, disse ela, como já dissera muitas vezes antes e como eu repeti para as minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, e todas as deusas são uma deusa, e há apenas um iniciador. E a cada homem a sua verdade, e Deus com ela.

    Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre o caminho para Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho de Avalon, perdido para sempre nas brumas do mar do Verão.

    Mas esta é a minha verdade, eu, que sou Morgana, Morgana que em tempos mais recentes, foi chamada Morgana, a Fada..."



    As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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