• Porque escrever é um vício.

    A liberdade não é um sonho, ela está do outro lado das cercas que nós mesmos construímos... (Instinto)



    Assistimos durante a madrugada duas pérolas do cinema: Instinto, com o sempre maravilhoso Anthony Hopkins, e Garota, Interrompida (considerado uma das muitas réplicas de Um Estranho no Ninho), com a garra de Angelina Jolie e 'a' patinho feio Winona Ryder.

    Ambos abordaram um tema com o qual tenho estranha intimidade: a LOUCURA...



    Minha mãe vive num condomínio em Campinas, aos pés de uma colina que abriga um Hospital Psiquiátrico. Eu morei por lá muitos anos - não no hospital, mas com meus pais, que fique claro...

    Durante as tardes, os pacientes são liberados para um passeio e circulam pelas ruas de 'fronteira fechada'. Eles riem e brincam com as crianças e os animais; desenham na areia, conversam com as flores, sentam-se no gramado para admirar o por do sol, silenciosos e com indecifráveis fisionomias...

    Muitas vezes, ao observá-los e ocasionalmente, pego-me questionando se os loucos são os que vivem internos ou os que caminham livres...

    Quem são os ensandecidos? Uma versão de pessoas como eu e você, talvez mais verdadeiras e corajosas...



    Vejamos: você se lembra daquela vez em que mentiu com prazer, de ter mudado uma situação, contando-a de outro jeito, sem arrepender-se? E de ter transformado seu coração em gelo, magoando indiscriminada e intencionalmente, parecendo não se importar com a dor nem com nada? E de quando desejou ser criança para sempre? Você se lembra de uma ocasião em que falaram com você e você fingiu não escutar? Lembra de quando, num gesto brusco e 'descontrolado', derrubou tudo o que tinha sobre a mesa e gritou, fazendo tremer um quarteirão? Você se lembra de ter sentido vontade de perambular por aí - ou até ter feito isso! -, sem destino, sem rumo, sem pressa ou vontade de voltar? Lembra-se de querer apagar o seu passado? Você se lembra de ter desejado acabar com tudo, morrer, ainda que remotamente e só por um segundo? De ter olhado para um vidro de comprimido e a garrafa de vodka, ou sentado-se na beirada de uma varanda alta, de estar dirigindo e olhado um penhasco, e ter pensado, mesmo que só num susto: "E por que não?"... Você se lembra de ter enterrado as unhas na palma das mãos até sangrar? Já quis atear fogo à sua volta? Já desejou matar alguém - ainda que em legítima defesa! -, sem sentir qualquer vestígio de culpa? Já deixou-se ficar na cama, trancada num quarto escuro por muitas horas, até dias, abandonada especialmente de si mesma? Já deitou-se no chão e ficou ali, chorando ou não, mas incapaz de levantar-se? Você se lembra de já ter-se olhado no espelho e não saber quem a olhava de volta?



    É... E, afinal, os loucos não somos nós...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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