Sábado, Novembro 24, 2007

Ao invés daqui, hoje escrevi lá: na Crônica do Dia.

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Sempre tive questionamentos sobre ter filhos. Tive uma fase em que desejei ardentemente ter uma criança. Mais tarde, num outro tempo, agradeci por não tê-la. Minha vida sempre foi um turbilhão. Sou daquelas pessoas - virginianas - que adoram a calmaria de tudo no lugar, numa rotina incansável; sou aquela que detesta mudanças.

Mas quis o destino que meus caminhos fossem pontilhados pelas surpresas - as boas e as nem tanto. Acabou que eu fiquei meio cigana, de um lado pra outro, sem aportar - mesmo quando aparentemente tinha criado raízes.

Dessa forma, comecei a entender que ter um filho não era seguro - não para mim, mas para ele. Porque eu tenho morando em mim uma mulher que, de repente, vai embora. Ela olha para tudo como se estivesse de fora: senta-se num canto e observa todos os movimentos; então avisa que é hora de partir, que já não pertencemos, nenhuma das duas, àquele cenário.

Quando meu marido me deu de presente o livro "O Ponto Cego", de Lya Luft, achei que era um recado (dele) e pensei se ela não estava narrando aquela história só para mim. Ela trata exatamente de uma mulher ausente-presente. Um menino que, com olhos atentos, capta uma mãe que escapa, ainda que esteja ali, que dedique sua atenção, tempo e carinho, que mantenha tudo na mais perfeita ordem. Mas ele, o pequeno, sabe da outra mulher que mora nela e que está de malas prontas...

Isso me deixou muito angustiada e acho que foi então que decidi(mos) não ter filhos... Sofro só de pensar em abandono - qualquer tipo dele -, mas na época perguntei-me se eu seria capaz de permanecer, para sempre, sem nenhum tipo de angústia.

"(...) Ela estava cada vez mais distraída. Algum tempo depois, ela foi embora. Foi tão singelamente como se essa partida fosse apenas uma etapa de uma viagem há muito iniciada, mais uma estação onde se troca de trem. Eu não soube de nenhuma despedida. Nem um bilhete pra mim, nem uma carta.

(...) No começo, chorei um grande pranto. As Tias vinham todo dia cuidar de mim, me enchiam de agrados, me consolavam. Mas não era a mesma coisa, não era o mesmo colo, não eram o perfume e a bondade dela.

- Viajou - disse meu Pai -, e não adianta chorar. Quando você menos esperar, ela volta. Afinal, aqui é sua casa.

Mas eu sabia que não era, não era mais. Ela agora habitava em si mesma, para dentro de si mesma viajara. (...)"
(Lya Luft, O Ponto Cego)