• Porque escrever é um vício.

    Todo nós deveríamos assistir Cidade de Deus - e talvez eu não devesse dizer coisa alguma sobre o filme, porque suas impressões são densas e precisam ser vistas para que se as possa sentir.

    Cidade de Deus traz o retrato de dois Brasis: mundos paralelos convivendo num mesmo espaço, feito margens que se olham e se tocam sem nunca se juntarem realmente. Há um oceano separando ricos e pobres que se transpõe através da violência, da dor desmedida, da vingança, da corrupção, mas permanece dividido.

    Não sei se me faço entender: também me confunde essa realidade social tão díspar e cruel, essa miséria crescente que se desfavorece a tantos, beneficia a muitos - e esse último, certamente, é o motivo principal porque ainda não se inventou um mecanismo de justiça universal, que dizimasse não vidas, mas sua desigualdade.

    Cidade de Deus não apresenta soluções - quem as terá de verdade? Mas nos coloca diante de um universo que sabemos existir e do qual passamos ao largo - ainda que esteja ali na esquina.

    Tudo muito triste...



    Na contrapartida, toda a técnica do filme é belíssima. A maneira como a história é contada é encantadora: a voz do menino - Buscapé (Alexandre Rodrigues) -, tem aquele tom que mistura poesia, desencanto, esperança, humor e tristeza, na medida exata da emoção. A fotografia é ótima, as imagens são excelentes, o enredo está de primeira linha. Quase não se nota que há poucos atores famosos: o elenco, formado quase totalmente por desconhecidos - muitos deles aspirantes a ator -, não deixa, em nenhum momento, a desejar: são preparados, talentosos, craques em interpretação, parte dos cenários, da trama, vestidos com a arte.

    O Cinema Nacional vai ganhando destaque, angariando - não sem tempo - seu merecido lugar cultural. Sem efeitos hollywoodianos - na minha opinião (embora alguns críticos insistam em inferir tais recursos à fita) -, Cidade de Deus retrata, com muita propriedade, um Brasil que também nos pertence - infelizmente. E se faz isso com muito impacto, ressaltando a tragédia do tráfico de drogas nas favelas brasileiras, também consegue inserir beleza: não tapa o sol com a peneira, mas nos faz crer que, afinal, ele existe e brilha para todos...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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