• Porque escrever é um vício.

    Hoje - agora já é ontem - o Bio, um dos meus enteados, veio jantar conosco.

    No meio do papo, perguntou se tínhamos algum livro para ele ler. Entre tantos que tirei da estante como indicação, ele escolheu um dos mais especiais para mim: O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy - presente de natal, em 98, de outro enteado, o Lu.

    Eu já escrevi sobre ele - eu sempre escrevo sobre ele e vou repetir.

    É um romance ancorado na angústia, sobre a Vida - real, e não das Polyannas... É sobre o Deus da Perda, O Deus de Arrepios e Sorrisos Súbitos, O Deus do Abandono, O Deus da Separação, O Deus do 'De Pois': O Deus das Pequenas Coisas - que podem mudar nossas vidas num segundo...

    E uma das coisas mais singulares dele - que pode passar despercebida ou até parecer irrelevante -, é o detalhe da autora de dar nome às coisas importantes e às que encerram muito sentido, sempre iniciando-as em letras maiúsculas...

    Mais uma vez, vou deixar um trecho para, quem sabe, aguçar a curiosidade de quem passar por aqui...



    "Em termos puramente práticos, provavelmente seria correto afirmar que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem.

    Talvez seja verdade que as coisas podem mudar em um dia. Que apenas doze horas podem alterar a trajetória de uma vida inteira. E que, quando isso acontece, essas poucas horas, como os destroços saqueados de uma casa incendiada - o relógio calcinado, a fotografia rasgada de um momento feliz, a mobília enegrecida - podem ser ressuscitados das ruínas e examinados. Preservados. Explicados.

    Pequenos acontecimentos, coisas triviais, esmigalhados, reconstituídos. Revestidos de novos significados - de repente eles se tornam os ossos descarnados de uma história... Mesmo assim, dizer que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem é apenas uma das maneiras possíveis de ver as coisas...

    Também seria viável afirmar que tudo começou muito antes de que o cristianismo chegasse num navio e se difundisse em Kerala como o chá de um saquinho no bule...

    Tudo começou quando as Leis do Amor foram promulgadas. As leis que determinam quem deve ser amado, e como. E quanto.

    Contudo, por razões práticas, num mundo incuravelmente prático... era um dia de céu muito azul, em dezembro de 1969. Um Phymouth azul-celeste com o sol refletido no capô cruzou os campos de arroz recém plantado, deixou para trás as velhas figueiras-da-índia a caminho de Cochin.

    No interior do carro estão os gêmeos Rahel e Estha - e assim começa sua história.

    Os dois crescem entre caldeirões de geléia de banana e pilhas de grãos de pimenta na fábrica da avó cega, Mammachi. Armados somente da invencível inocência das crianças, eles tentam inventar uma infância à sombra da ruína que é sua família - a mãe, a solitária e adorável Ammu, o delicioso tio Chacko, a inimiga Baby Kochama e o fantasma de uma mariposa que um dia pertenceu a um entomologista imperial.

    Rahel e Estha ficam sabendo que As Coisas podem Mudar num Só Dia, que as vidas podem ter seu rumo alterado e assumir novas - e feias - formas, que elas podem até cessar para sempre..."





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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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