• Porque escrever é um vício.

    Lya Luft é uma escritora de voz solitária. Nascida em 1938, é uma das últimas poetisas vivas com semelhança à geração de Cecília Meireles e Clarice Lispector. Tradutora, lançou-se romancista aos 40 anos, depois de publicar dois livros de poesia e um de crônicas.

    Ela é também uma mulher corajosa - que ousou abandonar marido e filhos para viver um grande amor. Seu romance com Helio Pelegrino foi breve: a morte, através de um inesperado infarto, tratou de amputar-lhe a vida precocemente. Hoje, está novamente casada com o lingüista Celso Pedro Luft e vive em Porto Alegre.

    A história de Lya Luft me comove pela ironia, a terrível - e temível - peça que o destino pode nos pregar: o amor, o maior amor, o esperado amor, roubado, interrompido. A impotência, mais do que nunca, provando que somos nada quando aos pés da Morte.

    Sua transparência diante da tristeza e da verdade dos seus sentimentos também é rara: embora tenha aceito a reconciliação com o ex-marido, é incapaz de esconder sua dor, sua incompreensão pela perda, seu silencioso desencanto.

    Muito curioso é que Lya sempre escreveu sobre a Morte. A maioria de seus livros - senão todos - têm uma ligação com os mistérios da tal senhora faceira e pouca gente talvez seja capaz de retratar tão bem a dor de continuar a viver sem aquele a quem amamos...

    Já li muitos livros dela. Pessoalmente, gosto muito de O Rio do Meio - ensaios que se centralizam na figura feminina. Seu romance também encanta: O Ponto Cego é o que mais me identifico. E tem a sua poesia: Mulher no Palco e O Lado Fatal, em memória do amado amante, ao qual ela se refere como o único livro circunstanciado e biográfico que escreveu.



    Ainda não acreditei em tua morte.

    Visito tua sepultura ao sol do Rio de Janeiro,

    Onde fomos felizes e infelizes e nos amamos tanto.

    Mas não acredito.

    Ponho a mão na pedra que esconde

    Alguma coisa que restou de ti;

    Mesmo assim não acredito.

    Deixo flores na laje ainda tosca,

    Saio a andar entre sepulturas anônimas e conhecidas,

    Sozinha ao sol da cidade onde já não moro.

    Imagino que devas ter morrido de verdade

    Ou não me deixarias andar ali tão só.



    (Quando acreditar em tua morte,

    O que fará meu coração?)



    * * * * * * *




    O meu amado era também um homem paciente:

    Quando estava com ele, chorei muito

    Com saudade dos filhos, da casa, da cidade

    Onde vivera quase uma vida.

    Ele me ouvia, consolava.

    Hoje, não tenho família nem amigos nem lugar.

    Perambulo entre uma cidade e outra em busca do que não terei.



    (Pode-se reconstruir uma vida estilhaçada?)



    Cada palavra dele, cada gesto,

    Cada uma de suas brincadeiras

    Ou de nossos comuns deslumbramentos

    Terá de ser uma peça desse enigma

    Que ficarei tentando resolver.




    * * * * * * *




    Se te pareço ausente, não creias:

    Hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,

    Hora a hora meu desejo revolve teus escombros,

    E escorrem dos meus olhos mais promessas.

    Não acredites nesse breve sono;

    Não dês valor maior ao meu silêncio;

    E se leres recados numa folha branca,

    Não creias também: é preciso encostar

    Teus lábios nos meus para ouvir.



    Nem acredites se pensas que te falo:

    Palavras

    São meu jeito mais secreto de calar.





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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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