• Porque escrever é um vício.

    No natal de dois anos atrás, um dos meus enteados chegou com um livro de presente: O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy.

    É um romance ancorado na angústia, sobre a Vida - real, e não das Polyannas... É sobre o Deus da Perda, O Deus de Arrepios e Sorrisos Súbitos, O Deus do Abandono, O Deus da Separação, O Deus do 'De Pois': O Deus das Pequenas Coisas - que podem mudar nossas vidas num segundo...

    E uma das coisas mais especiais dele - que pode passar despercebida ou até parecer irrelevante -, é o detalhe da autora de dar nome às coisas importantes e às que encerram muito sentido, sempre iniciando-as em letras maiúsculas...

    Essa semana, divagamos sobre seus significados... Então, vou deixar um trecho para, quem sabe, aguçar a curiosidade de quem passar por aqui...



    "Em termos puramente práticos, provavelmente seria correto afirmar que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem.

    Talvez seja verdade que as coisas podem mudar em um dia. Que apenas doze horas podem alterar a trajetória de uma vida inteira. E que, quando isso acontece, essas poucas horas, como os destroços saqueados de uma casa incendiada - o relógio calcinado, a fotografia rasgada de um momento feliz, a mobília enegrecida - podem ser ressuscitados das ruínas e examinados. Preservados. Explicados.

    Pequenos acontecimentos, coisas triviais, esmigalhados, reconstituídos. Revestidos de novos significados - de repente eles se tornam os ossos descarnados de uma história... Mesmo assim, dizer que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem é apenas uma das maneiras possíveis de ver as coisas...

    Também seria viável afirmar que tudo começou muito antes de que o cristianismo chegasse num navio e se difundisse em Kerala como o chá de um saquinho no bule...

    Tudo começou quando as Leis do Amor foram promulgadas. As leis que determinam quem deve ser amado, e como. E quanto.

    Contudo, por razões práticas, num mundo incuravelmente prático... era um dia de céu muito azul, em dezembro de 1969. Um Phymouth azul-celeste com o sol refletido no capô cruzou os campos de arroz recém plantado, deixou para trás as velhas figueiras-da-índia a caminho de Cochin.

    No interior do carro estão os gêmeos Rahel e Estha - e assim começa sua história.

    Os dois crescem entre caldeirões de geléia de banana e pilhas de grãos de pimenta na fábrica da avó cega, Mammachi. Armados somente da invencível inocência das crianças, eles tentam inventar uma infância à sombra da ruína que é sua família - a mãe, a solitária e adorável Ammu, o delicioso tio Chacko, a inimiga Baby Kochama e o fantasma de uma mariposa que um dia pertenceu a um entomologista imperial.

    Rahel e Estha ficam sabendo que As Coisas podem Mudar num Só Dia, que as vidas podem ter seu rumo alterado e assumir novas - e feias - formas, que elas podem até cessar para sempre..."





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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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