• Porque escrever é um vício.

    É curioso como algumas datas ficam marcadas em nós - seja porque foram especiais ou terrivelmente aborrecidas.

    Eu sempre tive memória fotográfica para números, de forma que qualquer coisa relacionada a eles, é abarcada pela minha mente com facilidade, permanecendo ali, ano após ano...

    Isso nem sempre é bom. Alguns dias, com suas situações aterradoras e incontroláveis, mereciam ser esquecidos, nunca mais lembrados; mereciam ser trancados em seu momento acontecido e permanecer ali: um tempo perdido no espaço, sem lembrança.

    Eu já quis ser uma mulher sem passado... Não faz muito tempo - talvez uns cinco anos... Foi uma época em que eu desejei imensamente ir para um lugar onde ninguém me conhecesse, mudar meu nome e ser uma outra pessoa, recomeçar a viver a partir daqueles novos fragmentos de uma vida inventada: nada para trás, nenhum vestígio das minhas experiências frustradas, dos meus sonhos partidos, dos meus desejos inalcançados...

    Não pôde ser assim... Apesar de eu ter viajado nessa ocasião para muitos lugares procurando onde aportar, eu descobri que me carregava comigo. Vinha ao meu encalço, por onde quer que eu andasse, a minha história: ela não concordou em me deixar partir sozinha... Minha bagagem era carregada das minhas lágrimas, amarguras e abandonos; também dos meus bons momentos, os amores que não deram certo, os erros que cometi, minha dor, meu sorriso, toda a contradição que mora em mim. Não foi possível abandonar-me...

    Apesar disso, eu construí uma vida nova. Encontrei o meu caminho e ergui as paredes da vida que eu queria ter. Foi um trabalho árduo e eu precisei de mais duas mãos - as mãos certas.

    No entanto, no ano passado, uma avalanche se encarregou de ruir com tudo novamente... E eu pensei que nada, nunca mais, pudesse ser reconstruído em - e ao redor de - mim. Eu pensei em desistir... Mas não o fiz...

    Entendi que somos feitos de uma matéria cuja força e resistência jamais saberemos com exatidão, mas nos mantém, de alguma forma inexplicável, guerreando contra qualquer inimigo. Temos uma capacidade desmedida para sobreviver...

    Minto, contudo, se disser que a reconstrução é fácil. Não é.

    Vive-se dias em que o passado emerge e parece que vai nos engolir, nos jogar ao chão, destruindo-nos de vez... É só uma impressão momentânea, mas ela vem até nós, gigante nos pisoteando a alma...

    Mas eu sei que vale a pena continuar, seguir o coração... E é assim que vou empurrando o passado para o seu devido lugar - metade de mim que não posso apagar, mas que tento manter no sótão escuro do meu interior. Minha estratégia é desenhar dias e noites sem número...




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    Coordena os Portais Babel Cultural e Estilo 40. 
    Escreveu por dez anos para o site Crônica do Dia. Administra e escreve minicontos em Hiperbreves.
    Formada em Letras, trabalha com arte-visual. Casada, 'mãe' da Maya - uma Labradora chocolate. 

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